A distância do contato. O narrador em Samuel Rawet.


Luiz Carlos Menezes dos Reis.
Poeta
Bacharel em Filosofia
Mestre em Literatura
Doutor em Literatura
pela UnB.

Com uma obra literária escrita entre 1956 e 1981 e composta de contos e novelas, Samuel Rawet tem uma trajetória comum a  muitos que vem da Europa como imigrantes para o Brasil na primeira metade do século XX. Numa obra que tem como característica geral “… personagens imersos na inadaptação e incomunicabilidade…” (Seffrinn, 2004 ,9), Rawet dá voz às dificuldades de adaptação e aos preconceitos como sentidos pelos que vem de fora. Seu livro de estréia os Contos do imigrante já gira ao redor desta acolhida sentida pelos que são repelidos, expressando assim a distância que caracteriza esta recepção do outro.

Transitando entre o Rio de Janeiro, cenário da maior parte de seus contos e novelas, e Brasília, presente em alguns contos do período final, a obra de Rawet dialoga com estes espaços. Trazendo também uma perspectiva de um olhar não totalmente adaptado ao que narra, as cidades são cenários de seres que vagam solitários raramente travando contatos com alguém. Narrar é então entrar neste mundo de afastamento e acessar estas interioridades perturbadas que transitam em cidades emblemáticas do Brasil.

Rawet chega ao Brasil cedo, oriundo da Polônia aos sete anos, instalando-se no subúrbio carioca, cenário de alguns dos primeiro contos. Fino observador do Largo do Machado, Catete, Glória e Flamengo e mais tarde de Brasília a narrativa de Rawet mostra um olhar de quem nunca teve uma adaptação reservando uma distância. Para tecer seus textos ele apresenta personagens e narradores que se ressentem na ausência do contato humano. Nesta atmosfera ela apresenta personagens perplexos e que não alcançam o outro, trafegando numa incomunicabilidade raramente quebrada. São seres que sofrem abalos, decepções ou que apresentam uma visão muito clara da hipocrisia reinante.

Entre o pessoal e o onisciente o texto de Rawet constrói esta interface que recorre constantemente a uma segunda pessoa interna para construir o texto “Que sombra recrudesce a sua volta?” (Rawet, 2004 pg. 357) em que a palavra “sua” denota um afastamento ao invés de assumir uma primeira pessoa explícita com o uso de “minha” por exemplo. O recurso sugere um texto próximo à interioridade do narrador mas não interior, como se o que fosse ser narrado não pudesse ser nem da ordem do narrador onisciente nem do narrador pessoal. Um narrador flutuante que diz de si como se estivesse afastado e tratasse sua interioridade como fatos brutos.

Desde seu primeiro livro de contos os Contos do Imigrante de 1956, os narradores e personagens aparecem envoltos numa atmosfera de isolamento, em que o contato humano e a comunicação encontram barreiras para se estabelecer. No conto de abertura, “O profeta”,  podemos notar que o narrador- personagem principal tece suas desventuras no Brasil, e o abismo entre ele e seus próximos acaba na volta do imigrante para a Europa arrasada. O não-contato impera e a felicidade e prosperidade de seus parentes cria uma barreira que não é transposta durante o conto. O profeta traça um trajeto de alguém que não consegue voltar ao ritmo normal da vida por ter visto o horror de frente. Ele se recusa então a viver uma existência cotidiana devido aos efeitos do mal que sofreu. Como analisar esta recusa que se repete na obra de Rawet?

O conto narra à chegada e saída de um imigrante europeu no Brasil. Fugindo dos horrores da segunda guerra mundial, que cronologicamente está próxima da publicação do livro, destacando sua não adaptação ao que encontra. O conto inicia com a saída do personagem principal e narrador que retorna para a Europa. “Todas as ilusões perdidas, só lhe restara mesmo aquele gesto. Suspenso já o passadiço, e tendo soado o último apito, o vapor levantaria a âncora.” (Rawet, 2004, pg. 25). Somos levados para a indiferença da despedida solitária, que é quase uma nova fuga. O personagem volta à Europa na esperança de um encontro com outros sobreviventes, esperança de uma possível troca que se mostra impossível aqui. O narrador recusa prosseguir nesta espera do contato e parte. Um narrador que deixa as ilusões e quer basear sua ação num contato legítimo. Ele recusa a confissão para procurar um contato com o outro em novas bases.

Quando repentinamente somos transportados para a própria chegada do imigrante ao país que irrompe num flash-back fulminante. Estamos então na chegada do narrador-personagem principal ao Brasil e seu encontro com seu irmão que aqui se estabelecera e encontrara a prosperidade com a família. Desde o início sentimos uma distância se estabelecer neste reencontro. “O engano esboçado no primeiro dia acentuava-se. A sensação de que o mundo deles era bem outro, de que não participaram em nada do que fora (para ele) a noite horrível.” (Rawet, 2004. pág. 27). Fica patente que o que a guerra fez com o narrador não permite que ele entre neste outro mundo do irmão que se desenvolve na abundância. Como esquecer tudo e gozar a vida, a visão do horror que se impõe impede esta adaptação. Não é possível num primeiro momento compartilhar esta noite horrível com quem vive uma existência tranqüila. A experiência do mal não é intercambiável numa conversa cotidiana.  Ressalta-se então o não contato como sinal que este mal deixa. Uma cicatriz ainda aberta que não pode simplesmente ser esquecida.

“Deduziu que seus silêncios eram constrangedores. Os silêncios que se sucediam ao questionário sobre si mesmo, sobre o que de mais terrível experimentara.” ( Rawet, 2004, pg. 26). O acontecimento sofrido pelo narrador abala sua crença no próprio contato humano. O terror e o silêncio denotam o mal sofrido que não pode ser socializado através de questionários superficiais. Enredado em si mesmo o narrador mergulha no silêncio não por opção, mas pela distância entre o seu mundo e o que está a conhecer. A ausência da narrativa não é simplesmente por opção ou recusa consciente, mas o silêncio emerge pela ausência das condições de comunicabilidade que tal visão deve requerer para existir. A atitude silenciosa é aquela de quem ainda não é capaz de expressar todo o horror que presenciou. Antes o silêncio que a simples expiação num discurso sem profundidade. Num segundo momento a tentativa de narrar o que presenciou também fracassa. O seu público, família e próximos, se cansa da narração do horror e prefere o silêncio.

Samuel Rawet apresenta então um  narrador que requer uma comunicabilidade para expressar sua vivência, mas não a encontra na família e no ambiente que o acolheu. Ele não pode basear sua narrativa nos moldes tradicionais já que não possuí uma legitimidade tradicional, mais ainda sua vivência não é exemplar e não pode alcançar quem nada viu do que sofreu. Ao mesmo tempo não é uma confissão o que ele intenta, já que como vítima ele sim é portador de uma acusação. Parece então que o narrador-personagem principal estaria condenado a um silêncio por ausência de possibilidade de uma narrativa legítima.

“-Aí vem o “Profeta”! mal abrira a porta, a frase e o riso debochado do genro surpreenderam-no.” (Rawet, 2004, pg. 27). Ele é denominado então como Profeta, já esta alcunha mostra o preconceito com sua figura e a incapacidade da família de se aproximar da dor sentida pelo narrador. O imigrante só sobressaí por seu exotismo e por sua figura anacrônica. A família se revela incapaz de chegar a este outro ressaltando sua condição de estrangeiro na comunidade. Passa a ser uma espécie de atração para os judeus que não presenciaram o horror do holocausto de perto. E quando resolve falar só causa a repulsa e incômodo. Espera-se dele que apenas esqueça, justamente o que não pode ser feito. O mal pode ser silenciado ou narrado, mas não pode ser apagado.

A cotidianidade exaspera o Profeta. “Quantas vezes (meia-noite ia longe) deixava-se esquecer na varanda com o cigarro aceso a ouvir numa fala bilíngüe risadas canalhas (para ele) entre um cartear e outro.”(Rawet, 2004, pg. 28). Não é possível compartilhar a diversão fútil com o peso do mal por trás. O que o Profeta viveu na Europa antes da guerra ele vive agora no Brasil. Só que após a guerra, num ambiente de riqueza e abundância ele só é capaz de ver o lado vil desta felicidade que é apoiada no mero sucesso financeiro. Sua experiência não pode ser superada pelo conforto e abundância atual, mas só por uma compreensão mínima do que aconteceu. O mal não é algo palpável a ponto de ser superado, é preciso conviver com esta cicatriz e elaborar o futuro a partir dela. Talvez aqui se explique a volta do Profeta em busca de semelhantes para elaborar esta compreensão do vivido e narrar num ambiente de compreensão e reciprocidade.

Refugia-se então em sua interioridade recusando o contato humano nestas bases materiais. “O monólogo fora-lhe útil quando pensava endoidar. Hoje era hábito.” (Rawet, 2004, pg. 28). O que resta é o recolhimento na interioridade para aqueles que não conseguem chegar ao outro. A postura crítica é típica daquele que está fora e é capaz de perceber e desvendar as ideologias de uma comunidade. O refugio em si mesmo tenta encontrar um lugar para elaborar algum sentido. A recusa do outro não é uma fuga por soberba mas para preservar esta compreensão que se esvai no fútil.

Uma primeira leitura do conto parece confirmar esta proposta. Toda a história do Profeta se dá num clima de desentendimentos mútuos. Os enganos encobrem um abismo que se escancara cada vez mais. Mas subitamente o olhar de uma criança cria o vínculo e o Profeta se relaciona com ela. “Chiado de ondas. Um dedo pequeno mergulhado em sua boca e um riso ao choque. Riso sacudido” (Rawet, 2004, pg. 29). O riso que brota do narrador-personagem principal é resultado de uma comunicação legítima que devolve ao Profeta uma relação de proximidade com a vida. Ao vivenciar estes momentos com seu sobrinho na varanda do apartamento percebe-se ainda uma possibilidade de vida; ao invés do esquecimento e do silêncio surge uma comunicação legítima. Ela resulta de um contato verdadeiro que se estabelece além da cotidianidade e as convenções despertando um vida que parecia condenada pelo horror.

Este contato é uma pura troca de vivências em que o olhar e o toque desempenham um papel fundamental. Não se trata de uma exemplaridade ou de uma regra, mas de algo comunicável apenas através de um contato além das limitações sociais. Ao mesmo tempo esta comunicação não é uma confissão, pois não se trata de expiar uma verdade íntima, mas de encontrar um contato através de uma vivência irrepetível. O narrador em Samuel Rawet tece uma atmosfera de busca por uma vivência capaz de contactar com uma vida ainda digna de ser vivida.

Isso quer dizer que Rawet não recusa simplesmente o contato, mas que quer estabelecer este em novas bases como através da pureza da criança que alcança a profundeza do narrador. O contato surge em novas bases revelando uma relação com o outro que não se delimita pela superficialidade comum representada pela família típica de classe média que acolhe o Profeta. A pureza da criança desperta nele uma relação autêntica que nada pede em troca além do próprio contato. Assim o devir em Rawet abre-se para um novo encontro com o outro. A criança chega ao profundamente humano sem mediações sociais, revelando aquilo que fora negado pelo resto da família.

BIBLIOGRAFIA.
RAWET, S. Contos e novelas reunidos. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 2004.
SEFFRIN, A. “Samuel Rawet: fiel a si mesmo.” in. Contos e novelas reunidos. Rio de Janeiro. Civilização Brasileira, 2004.