ENSAIO SAMUEL RAWET DOS TORMENTOS À EXISTÊNCIA


CAPA_LUIZ_REIS2.2-CAMINHADAS NA RUA DURANTE A NOITE

Percebemos que os personagens de Samuel Rawet estão em constante movimento por espaços estranhos, não reconhecíveis, com marcos fluídos e enganadores. O espaço não é algo acolhedor e agradável, mas um lugar de desconforto e de buscas. Para muitos dos personagens não existe uma irmandade com o espaço que é habitual para os demais, eles trafegam sem poder expressar senão um estranhamento a tudo que é exterior. Apenas a rua aparece como um espaço no qual é possível trafegar e apreender o exterior aos poucos.
Caracterizados pela solidão que os isola de um contato com os outros, estes personagens estabelecem uma relação com o espaço que transita entre o presente, passado e futuro. Eles estabelecem marcos que ligam as temporalidades em saltos que marcam um constante deslocamento no espaço e no tempo.
Deleuze e Guattari nos lembram que: “Há ciências ambulantes, itinerantes, que consistem em seguir um fluxo num campo de vetores no qual singularidades se distribuem como tantos outros “acidentes” (problemas).” (Deleuze e Guattari, 2002 3. 40). Segundo este postulado, existe um pensamento capaz de mapear os deslocamentos e que é capaz de rastrear os movimentos no espaço. Desta maneira podemos pensar o nômade, pois do contrário ele seria sempre outro em relação aos que ocupam o espaço de uma forma permanente. Se atentarmos para os movimentos e mostrarmos suas aparições como saltos e deslocamentos no espaço, temos um caminho para mapear suas vias.
Pode-se observar que surge uma nova perspectiva para o saber, são as singularidades que emergem mais do que o comum. Nesta visão o saber não é algo estático, mas um conhecimento que segue os deslocamentos das singularidades. Ao invés de definições que preenchem todo seu objeto, estamos diante de descrições de trajetórias que vagam. Não é possível mapear um nômade de acordo com um plano pré-estabelecido, ele foge da constância tradicional. A ciência nômade precisa de mobilidade, ela cresce e movimenta para pensar os deslocamentos, as intensidades que emergem de escolhas.
Na paisagem noturna, os personagens de Samuel Rawet desenvolvem perspectivas cambiantes sem uma rota pré-determinada. Suas errâncias são deslocamentos em um espaço aberto que propicia momentos de intensidade que constituem acontecimentos. Perseguir estas singularidades em seus movimentos noturnos com base no texto do longo conto, quase uma novela, “Crônica de um vagabundo” é a proposta deste tópico. Eis o início do conto:

“Era uma vez um vagabundo, pronunciou quando ergueu a maleta e caminhou em direção à rua. Gostaria um dia de ouvir uma história que assim começasse. Sobre o asfalto ainda a umidade da lavagem noturna, e na atmosfera um azul tênue filtrava-se pelas nuvens cinzentas, como se o negrume da madrugada se transformasse em sombras azuis ao chegar o dia. À esquerda da rodoviária o píer só tinha guindastes em movimento, nenhum navio ainda. Mais ao longe pequenos barcos ainda iluminados contornavam a ponta de terra em direção à barra, ou ao outro lado da baía. Caminhou com firmeza mas sem saber para onde ia. A necessidade de movimento projetava-o como se estivesse bem determinado em seus propósitos.” (Rawet, 2004 3. 211).

Notamos uma conotação metalingüística em que o personagem anônimo anuncia sua própria história. Ao intitular-se “vagabundo”, o personagem assume uma identidade fluida em que se reconhece como aquele que não tem um lar e que vive sem trabalho formal. Ele é aquele que está fora da sociedade e vive de suas sobras e restos. O vagabundo é o que leva uma vida errante sem morada fixa e que se caracteriza por movimentos no espaço urbano.
Somos apresentados ao espaço da rua em que o personagem caminha em seu primeiro contato com a cidade desconhecida. O olhar, que é uma marca da percepção dos personagens de Rawet, marca a apreciação do espaço circundante. O dia que inicia, ainda marcado pela umidade noturna no asfalto, é marcado pela claridade que surge da escuridão. A percepção do personagem marca a rodoviária, o espaço do porto que está perto e os barcos que navegam na baía. Mas ele logo abandona este espaço para colocar-se em deslocamento pela cidade.
Sua caminhada é firme, mas sem um caminho pré-definido, isso o caracteriza como nômade. O espaço pode ser identificado como o centro do Rio de Janeiro mesmo sem ser nomeado. A rodoviária perto do porto e a presença da baía são marcos que orientam o personagem e estabelecem a pertença do espaço a uma cidade específica.
O personagem amanhece na cidade estranha advindo de suas perambulações; a distância do desconhecido é suavizada pelos blocos de sensações puras que ele recebe da rua. A rua é o espaço deste vagabundo, o lugar de absorver o conhecimento do mundo exterior. As cores da manhã pungente se manifestam para o visitante não esperado enquanto a cidade dorme. A poesia da linguagem reflete o conhecimento ambulante que se manifesta no espetáculo do momento em trânsito. É no próprio caminhar que ele conhece e estabelece sua compreensão. Esta é apresentada na narrativa tanto de forma a descrever objetivamente o espaço exterior quanto na perspectiva da elaboração interna pelo personagem deste exterior. O espaço em movimento sugere que existem aberturas de momentos que falam mais do que o seu transcorrer cronológico. Momentos de êxtases e consequências em espaços abertos que apontam para um devir que é parte destes personagens.

“Um devir não é uma correspondência de relações. Mas tampouco ele é uma semelhança, uma imitação e, em última instância uma identificação. Toda a crítica Estruturalista da série parece inevitável. Devir não é progredir nem regredir segundo uma série.” (Deleuze e Guattari, 2002 2. 18).

O devir é uma sequência de acontecimentos sem que estes estejam dispostos em uma série ou sequência. O devir não é uma acumulação ou um progresso, mas sim a irrupção de fatos numa temporalidade sem conexões lógicas ou de imitação. Os seres rawetianos estão em constante devir, pois os personagens sofrem transformações que são mudanças de estado, indecisões que são devires para algo diferente. O devir então recusa a ser um movimento que seria uma imitação dos padrões socialmente aceitos, pois ele se desloca em direção a algo novo, algo que antes não se definia ou não existia. Assim contrapõe os personagens de Rawet aos demais habitantes da cidade, pois estes são seres e indivíduos com uma rotina estabelecida, em que o espaço repete-se. Os que estão em devir não progridem em séries, mas em saltos, metamorfoses através de acontecimentos que eles não dominam. Este devir não surge a partir de uma semelhança com algo estabelecido ou planejado, mas é um passo além, uma inovação.

“O corpo doía-lhe da viagem noturna, e embora trouxesse uma carga de amargura suficiente para garantir um deslumbramento momentâneo diante da paisagem, ele que normalmente não era tão amigo assim de paisagens, caminhava em passadas firmes sem desvios de atenção nem rompantes de ódio. Seu ódio deve ter adquirido a consistência das coisas permanentes. Não necessitava mais de objetos pessoais ou circunstâncias que precipitassem sua aparição. Incorporara-se-lhe, fazia parte de seus gestos e sorrisos, e não podia deixar de reconhecer que era um estimulante forte para a ação” (Rawet, 2004 3. 211, 212).

Podemos observar o ódio que caracteriza o vagabundo manifestando-se sem exasperações. Sua posição é de oposição a toda a sociedade circundante, mas este ódio já faz parte de sua cotidianidade de forma a não necessitar de um estímulo interior. Além disso, podemos ver que é o ódio o que o coloca em movimento, eis o combustível que alimenta sua ação.
A necessidade física de descanso o leva a procurar um pouso para seu corpo exaurido. Mas esta jornada não faz parte de um plano já estabelecido, ela surge da necessidade corpórea imediata. Um movimento no espaço que é regido pelas percepções e necessidades do corpo sem um plano intelectual.
Ele dirige-se a um bar e toma um café, faz a conta e constata sua falta de dinheiro, momento em que nota que ali existe uma hospedagem. Assim que chega à pensão, negocia a estadia com um relógio e estira-se na cama. Os pensamentos de sua consciência invadem a narrativa e somos levados pelo narrador a apreciar as elucubrações de sua interioridade.

“Ele ousara ir mais longe, no dia em que compreendeu que o que havia de mais profundo naquilo que tentavam lhe explicar era chão e inconsistente, era uma profanação de densidade, e no plano do autêntico, uma água de cheiro para banhos de inocentes. O que lhe era ministrado como o supra-sumo dos remédios humanos lhe surgiu de repente como a sua capa de fragilidade e inconsistência. E de repente percebeu que havia uma inversão. O que era tido como aparente, secundário, era o mais importante… Pagou caro, porque o que era conhecimento era morte também, e porque para se conhecer precisou de um outro, e precisou de confissão e a confissão e o outro deixaram-no pior ainda. Porque ao outro haviam ensinado tudo, menos uma coisa, um pequeno detalhe, o fundamental.” (Rawet, 2004 3. 213).

Seu passado é relembrado na intimidade provisória do quarto de hotel. O narrador apresenta de forma impessoal os pensamentos do vagabundo que narram sua conversão ao estado de nômade. A sua opção de um caminho longe do tradicional é vista como uma metamorfose, em que a compreensão da mesquinharia e da hipocrisia reinante o afasta do cotidiano e da normalidade prevista para si. Sofre a partir do acontecimento da recusa, e vive partindo desta ruptura que o coloca como vagabundo e diferente.
Ele morre para emergir em uma pessoa diferente que não reconhece mais a si mesmo na calmaria e na mesmice anterior. Seu devir o coloca como um outro para si mesmo ao não conseguir mais reconhecer-se como uma continuidade.
Os personagens de Samuel Rawet recusam uma existência comum não por rebeldia ou aversão, mas por sentirem a impossibilidade de uma existência baseada na superficialidade. No conto ele encara a vida de vagabundo em que cada jornada segue os rumos do acaso e das necessidades mais básicas sem o luxo ou a comodidade de antes. Ele troca de opção valorizando o que era acessório anteriormente, e que agora é tido como o mais importante, uma honestidade que o afasta da hipocrisia reinante.
Além disso, sua jornada é também uma procura. Busca por algo que ainda não foi fornecido pela metamorfose, existência ainda inconclusa em que ainda não foi pronunciada a última palavra. Ser em fluxo que emerge de um acontecimento que põe em xeque todo seu passado e que ainda não é uma plenitude. Ação e movimento que caracterizam a busca, procura pelo que a vida tem de mais significativo. Existe uma confissão que ele efetua frente ao outro que aponta sua mudança. Neste ritual ele sente o desconforto de confessar e assumir-se perante alguém que vai julgar e avaliar seu íntimo.
A confissão é, segundo Foucault, a forma da modernidade lidar com seus problemas, pois as transformações e o desenvolvimento do interrogatório, a Inquisição e outros fatos deram “à confissão um papel central na ordem dos poderes civis e religiosos” (Foucault, 2005. 58). O indivíduo moderno se expia através da confissão, ela é a forma de dizer quem se é realmente. O indivíduo que perde seu lugar determinado de antemão pela tradição e tem que se encontrar no mundo para se afirmar como sujeito, tem que confessar para alguma espécie de poder quem ele é. Este é o momento em que o público e o privado se misturam, pois na modernidade o que era o mais íntimo vai ser exposto pela confissão. Ao mesmo tempo em que a interioridade do sujeito precisa legitimar-se para si, ela tem que estabelecer diante do social sua autonomia.
“Passou-se da “confissão”, garantia de status, de identidade e de valor atribuído a alguém por outrem, passou-se à “confissão” como reconhecimento, por alguém de suas próprias ações e pensamentos.” (Foucault, 2005. 58). Antes era o local da sociedade que o indivíduo ocupava que o definia, desde o seu nascimento normalmente, e aí estamos no mundo tradicional em que o indivíduo não se descolava do todo social. Neste mundo o indivíduo é visto de fora, pela perspectiva de sua inserção no todo…